Feira Sustentável Verdes Livres
- Otávio França

- 3 de jul. de 2025
- 3 min de leitura
Chapada dos Guimarâes MT
"Pensar, Construir e Preservar: Caminhos para uma Arquitetura Consciente"
A Sabedoria que virou semente
Imagine que construir uma casa sustentável é como cozinhar com ingredientes locais: nossos ancestrais já dominavam essa arte há 15 mil anos. Em Monte Verde, no sul do Chile (14.800 a.C.), comunidades paleoíndias erguiam cabanas de madeira e peles com orientação solar precisa para captar calor no inverno e sombrear no verão. Essa inteligência ancestral, que hoje chamamos de bioclimática, não é nostalgia, é uma resposta urgente aos 40% de recursos naturais consumidos pela construção civil moderna (Pacheco-Torgal 2014). Quando descobrimos que uma simples rotação da planta baixa pode reduzir a temperatura interna, como aprendemos com nossos ancestrais chilenos, percebemos que o futuro da arquitetura está enraizado no passado.

Esta conexão entre eras ganha vida quando observamos como Caral-Supe (Peru, 2600 a.C.) revolucionou a engenharia antisísmica com suas shicras: sacos de fibras naturais cheios de pedras que inspiraram nossas mantas geotêxteis modernas. Ou como os sambaquis brasileiros (8.000 a.C.) usavam montes de conchas para elevar habitações e controlar umidade através da ventilação natural. Esses povos não tinham certificações LEED, mas entendiam profundamente que construir é dialogar com o território, princípio que ecoa em cada projeto contemporâneo queo observamos em biomas como o Cerrado, onde casas de taipa e madeira nativa respiram (troca de calor) de acordo com clima local.
A Circularidade do tempo: técnicas que renascem
A Revolução Industrial tentou apagar esses saberes, mas a crise climatica os trouxe de volta com força redobrada. Hoje, técnicas ancestrais e inovações científicas se fundem em soluções surpreendentes: o BTC (Bloco de terra comprimida) ou popularmente conhecido como tijolo ecológico industrializado, reduz o consumo de agua em sua produção e aplicação, as cisternas de captação de chuva, usadas nos Andes há milênios, agora integram zonas húmidas até fossas ecológicas que tratam esgoto com bananeiras.

Este renascimento não é apenas técnico, mas ético. Quando vemos um jardim vivo com plantas nativas da região , estamos diante de um ato de reparação histórica. Essas espécies nativas não só reduzem a temperatura criando bioclimas, como resgatam um pacto sagrado quebrado pela construção convencional: o de que toda moradia deve regenerar mais do que extrair. Prova disso são os principios de jardins de chuva que Zephaniah Phiri Maseko desenvolveu no Zimbábue (África), replicando sistemas de drenagem ancestrais e eliminando alagamentos e permitidndo que água siga seu fluxo natural.
Exemplos de Jardins de Chuva
O vaso e o legado, por onde começar?
O vaso de folha de bananeira com sementes que distribuí no Verdes Livres (produzido muito carinhosamente pela equipe do NaFloresta) era mais que um símbolo – era um manifesto material. Ele encarnava o mesmo princípio das primeiras moradias humanas: matérias-primas efêmeras que se reintegram ao solo, gerando vida nova. Essa filosofia de circularidade nos convida a agir. Comece exigindo de profissionais a mesma observação cuidadosa do terreno que guiava os construtores de Monte Verde; valorize construções que dominam técnicas de biocontruções, incetive o uso de materia prima de origem confiavel e que respeitem os recursos naturais e, acima de tudo, lembre que cada lar é uma semente para o futuro.
Eventos como o Verdes Livres na Chapada dos Guimarães são a materialização do conceito de Acupuntura Urbana de Jaime Lerner (Arquiteto e Urbanista curitibano): intervenções precisas que revitalizam espaços públicos sem gentrificação. Ao transformar a histórica piscina pública (símbolo de convívio comunitário) em palco para debates sobre sutentabilidade, evitamos que ela se torne um espaço subutlizado ou hipervalorizado e, em vez disso, a convertemos em ferramenta de educação ambiental.

Do papo à prática, cada sementinha plantada conta um segredo: a revolução sustentável não vem de guindastes – mas desse chão onde leigos, curiosos e experts sujam as mãos juntos, inventando os lares do amanhã.
Fotografia: Alexia Beal @alexiafotgrafia__
Otávio França, Arquiteto e Urbanista.








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